V.A - Depósito de uma Natureza Activa  [ZABRA002]


João Pedro Fonseca


Mr. Herbert Quain / Manuel Bogalheiro - Stimulated/Simulated


Manuel Guimarães -  Sombras do Tempo


I, Alexander / Pedro Barquinha -  OSSO part II





Há uma desconfiança que nos perturba: toda a natureza é natureza morta. Sob o inebriamento das luzes da ciência moderna e do seu racionalismo universal, fomos adormecidos num sonho em que, por princípio, todo o Mundo é governado por leis imutáveis que apreendem a natureza como uma matriz de fenómenos transparentes e previsíveis. Emancipado pela técnica, é o Homem que inventa a natureza e se assume como o mestre desse gigantesco depósito, o depósito de uma natureza passiva e morta, transformada num mecanismo que, uma vez programado, continua controladamente a seguir as regras inscritas no programa de uma engenharia absoluta. É esse programa que lhe sacia as necessidades e assegura o progresso que colonizará todos os domínios do mundo natural e das suas imprevisibilidades. Do alto do seu império, o Homem não é apenas piloto e mestre, é também um contemplador: o espectador que observa, com uma distância segura, o cenário prodigioso desse depósito natural, continuamente arranjado, preparado, montado e artificializado para o satisfazer.

Apenas recentemente teremos começado a acordar desse sonho. Quando o impacto humano sobre a Terra é maior do que qualquer outro, pressente-se, enfim, que até o Homem faz parte desse depósito e que o acelerador do seu progresso é também o do seu declínio. A virtude do novo olhar é inseparável do desassossego que o aflige: o depósito rico, e até então silencioso, – a natureza como eterna alteridade da cultura humana – deixa de ser o pano de fundo, o meio envolvente, a figura distante. O que foi dado como seguro é, afinal, instável e, cada vez mais, indecifrável. Como consequência, o momento em que as preocupações ecológicas alertam para a frágil sustentabilidade do mundo natural é também o momento em que a sua dimensão de força maior e activa se torna evidente.

Através de três peças que constituem três momentos distintos, mas relacionados, de problematização destas tensões, “Depósito de uma Natureza Activa” surge como um laboratório livre no qual se joga a possibilidade de se reiniciar a ideia de natureza à luz das mutações presentes: pensar uma natureza activa implica pensá-la a partir da sua face irascível e selvagem, implica, no limite, pensá-la como qualquer coisa que, mesmo que já tenha sido lançada na vertigem do seu apocalipse, continua desgovernada a irromper sob as pegadas do Homem, indiferente aos seus crimes ou às suas esperanças, surda perante os seus cantos ou as suas preces.

As três instalações foram desenhadas e concebidas pelo artista visual João Pedro Fonseca, para as quais convidou três músicos portugueses, de cidades distintas, para trabalhar a sonoplastia e, assim, fundir a sua perspectiva individual do tema com as peças já criadas.


Credits:

Stimulated/Simulated by Mr. Herbert Quain / Manuel Bogalheiro  (Lisboa) Sombras do Tempo by Manuel Guimarães  (Coimbra)
OSSO part II by I, Alexander / Pedro Barquinha (Nova Iorque)

artwork and album concept by João Pedro Fonseca.



> peças



Video da peça de videoarte e instalação "Stimulated/Simulated" pertencente à exposição individual "Depósito de uma Natureza Activa" de João Pedro Fonseca. Música criada por Mr. Herbert Quain / Manuel Bogalheiro.

Esta sessão conta com 16 minutos de texturas e policromias das mais variadas forças e formas da natureza. Através de 4 fases, especula-se sobre uma breve história da passagem do Homem pela Terra e da sua relação agonística com a Natureza. Terá havido uma primitiva fase mágica de união umbilical, a qual, progressivamente, foi colonizada por todo o tipo de aparelhos de dominação desse grande depósito natural. Geo-construtivistas de todos os pontos terrestres, munidos das mais complexas ferramentas, dispuseram-se a formar à sua imagem aquilo que, mesmo que aparentemente passivo, dispunha já uma irascível forma original. O desfecho, sempre imprevisível, revelará ao Homem a obsolescência de todos os seus investimentos técnicos. Stimulated/Simulated dá conta dessas passagens ambíguas, nos sons e nas imagens que podem constituir a linha imaginária de um futuro que, esperamos, seja sempre alternativo.




Seguir regras, saber transgredi-las. Duas disposições fundamentais para uma prática saudável da sempre incompleta arte de conduzir vida, duas disposições fundamentais de duas artes particulares: cozinhar e misturar discos. O terceiro podcast da ZABRA junta as duas destrezas no mesmo espaço: Nélio Pedrosa na cozinha, Moreno Ácido nos discos. Force-se a comparação metafórica para, por exemplo, se dizer que a escolha dos ingredientes certos implica o conhecimento das escolas, dos movimentos e das geografias, mas implica também saber que há uma combinação que nunca foi testada, que pode ser ensaiada de modo inédito ou que pode surgir na improvisação espontânea do momento. Na música, seja enquanto Dj, seja enquanto produtor, Moreno Ácido é mestre sabidão desse impulso de criação e de recombinação. Dos primeiros beats de hip-hop, no final dos anos 90, até ao EP de 2017, “91 FAHRENHEIT”, Moreno foi sempre um conhecedor indisciplinado, um estudioso desviante – um militante desse equilíbrio frágil, mas rico, entre percorrer uma matriz e abrir sempre novas brechas dentro dela.


ZABRAPODCAST002 - Paulo Vicente



Quando perguntaram a Ornette Coleman se o jazz poderia ser o som da revolução, o saxofonista respondeu que sim, mas acrescentou uma ressalva decisiva: “sim o jazz é o som da revolução, mas não apenas da revolução política ou social. O jazz é também, e até talvez sobretudo, o som das revoluções interiores de cada um enquanto ouvinte. Depois de atravessar a experiência de ouvir um disco de jazz que me toca, já não sou o mesmo.” As palavras de Coleman ecoam ao longo do segundo podcast da ZABRA Records, gravado por Paulo Vicente. As escolhas e o alinhamento desta sessão reflectem a paixão de Vicente pelo inesgotável mundo do jazz, mas, acima de tudo, a sua militância enquanto músico e produtor (Claxon), enquanto editor (Womblabel), enquanto coleccionador, divulgador e Dj, enfim, enquanto melómano e ouvinte de quem se pode dizer que, inúmeras vezes, sentiu intimamente a revolução irreprimível da música. Imprescindível.



ZABRAPODCAST001 - MR. Herbert Quain

ZABRAPODCA
001 > Mr. Herbert Quain


Before debuting in the first editions, ZABRA Records, sublabel of Zigur Artists, announces itself through the first episode of its podcast series. Recorded live by Mr. Herbert Quain, an old accomplice of the Zigur family, in an environment created by João Pedro Fonseca, the session, like a small boat, crosses the several latitudes, waves and climates to which a reckless sea voyage is subject. From the placidness of the first environmental textures to the rhythmic rush of other speeds, Mr. Herbert Quain shows his references and maps the future co-ordinates of the new worlds to be discovered through the ZABRA records catalog.




A/V LIVE DESTERRO



Terra Chã Dupla Insularidade [ZABRA001]







It would be difficult to think of the possibility of a moving land, on a stone raft, like portuguese writer José Saramago would call it, overcoming inertia states. But it is between an ocean and a secluded rhytmic atmosphere that 'Terra Chã' takes place, on their debut EP called "Dupla Insularidade". First ever release by Zabra Records label. United by Music, Fabrizio Reinolds and Ricardo Fialho share an island as well: an island where the longitude bisection reveals a new method of space and time sculpting, in a triptych: Macaronésia, Travessa and Encumeada. Those not only resemble textures or places, they also incite a cascade of rare flavours that defy us to wander through other ways of expression.


Produced: Fabrizio Reinolds e Ricardo Fialho.
Mastered: Ricardo Fialho.
Artwork & design: João Pedro Fonseca.









︎    ︎









Merch   Contact    ︎   ︎   ︎